D. Estefânia, a Rainha Caridosa

Retrato de D. Estefânia por Karl Ferdinand Sohn, 1859 (Coleção Palácio Nacional da Ajuda)

D. Estefânia de Hohenzollern-Sigmaringen teve uma vida breve, mas inscreveu seu nome na História de Portugal. Rainha por pouco mais de um ano, conquistou respeito e apreço popular por sua sensibilidade e dedicação aos mais necessitados.

Uma princesa alemã na corte de Portugal

D. Estefânia nasceu em 15 de julho de 1837, na Alemanha. Filha do Príncipe Karl Anton e da Princesa Josefina de Baden, recebeu uma educação adequada a alguém de sua estirpe, acrescida de forte formação moral e religiosa.

Em 1858, casou-se com o Rei D. Pedro V de Portugal. O matrimônio foi celebrado em Lisboa e recebido com entusiasmo pela população.

A jovem Rainha rapidamente conquistou a simpatia dos portugueses. Austera, mas sensível às questões sociais, dedicou grande parte de seu tempo a obras de caridade e ao auxílio aos mais necessitados.

D. Estefânia e D. Pedro V (Reprodução/Wikimedia Commons)

Caridade

Durante sua curta permanência em Portugal, destacou-se pelo trabalho social, sempre em comunhão com suas convicções religiosas e em estreita colaboração com a Igreja. Visitava hospitais, incentivava ações caritativas e apoiava iniciativas voltadas aos mais vulneráveis.

Seu interesse especial pelas vítimas do cólera e da febre amarela levou à criação de uma das unidades de saúde mais importantes de Lisboa: o Hospital de Dona Estefânia, unidade de referência em pediatria. O hospital foi fundado em 17 de julho de 1877, 18 anos após seu falecimento, como expressão de um desejo particular da Rainha, que chegou a usar o próprio dote de casamento na criação de uma enfermaria para amparar crianças pobres e doentes.

Lamentavelmente a vida de D. Estefânia foi breve, assim como a de seu marido, morto aos 24 anos de idade de febre tifoide. Em 17 de julho de 1859, pouco depois de completar 22 anos, a Rainha faleceu em Lisboa vitimada pela difteria.

Sua morte causou comoção nacional e sua vida curta foi logo idealizada. D. Pedro V ficou profundamente abalado, e o país perdeu uma figura que em pouco tempo conquistara o apreço popular.

Lar Rainha D. Estefânia

Muitas décadas depois, sua imagem permaneceu associada à caridade, inspirando iniciativas no campo social. Em 8 de dezembro de 1991, a Caixa de Socorros D. Pedro V inaugurou em sua homenagem, no bairro de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, o Lar Rainha D. Estefânia.

Instituição filantrópica, o lar ofereceria residência assistida e acolhimento digno a Pessoas Idosas de forma gratuita.

Sua criação foi uma iniciativa de Artur dos Santos Pereira, então Presidente da Caixa de Socorros D. Pedro V. Durante os anos em que funcionou, até ter suas atividades encerradas no início dos anos 2000, acolheu muitos idosos.

Inauguração do Lar D. Estefânia em 8 de dezembro de 1991 (Arquivo Caixa de Socorros D. Pedro V)

Um legado de personalidade e solidariedade

Por sua sensibilidade e espírito de solidariedade, mais de um século após sua morte D. Estefânia continua lembrada como uma das figuras mais queridas da Monarquia portuguesa.

Mulher instruída, tinha fortes convicções políticas e religiosas e um espírito reformador, assim como o marido.

Face às suas convicções, enfrentou o desgosto imposto pelas limitações de um quadro político cada vez mais propenso à separação entre política e religião, marcado pelo receio do protagonismo das ordens religiosas e pela valorização de uma benemerência mais “civil” do que confessional.

No delicado equilíbrio entre convicções pessoais e limites institucionais, pôde ainda assim deixar a sua marca, afirmando-se como modelo de virtudes associadas à caridade — razão pela qual foi consagrada no panteão das rainhas mais queridas pelo povo.

Por Gabriel Ferraz Martins

Referências:

CAIXA DE SOCORROS D. PEDRO V. Novos Tempos, 1998-1993. 130 anos servindo ao próximo. Rio de Janeiro: Caixa de Socorros D. Pedro V, 1993.

SEIXAS, Miguel Metelo de. Heráldica no Hospital Rainha Dona Estefânia. Armas e Troféus – Revista de História, Heráldica, Genealogia e Arte, Lisboa, IX série, tomo XVII, 2015, p. 253-270.